|
AFRICANIDADES
|
![]() |
VIVÊNCIAS, IMAGENS E RELATOS SOBRE O GRANDE CONTINENTE - ÁFRICA VISTA PELOS OLHOS DE UM BRANCO 12.9.06 EVENTUAL MUDANÇA DE ENDEREÇO Se porventura este local não for actualizado nos próximos dois dias... MUDÁMO-NOS PARA AFRICANIDADES.BLOGSPOT.COM Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> 11.9.06 DE VOLTA, MAS COM PROBLEMAS NO SERVIDOR Há já vários dias que tento chutar palavras para a pantalha, mas o BLOGGER não me tem permitido. A ver vamos se daqui para a frente a coisa estabiliza. AFRICANIDADES segue dentro em breve. Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> 24.8.06 DIFICIL DE ACREDITAR
Há coisas que custam a entender, de tao absurdas e estupidas serem! Acabo de receber um e-mail da Guiné-Bissau com a informacao de que a tabanka de Varela, no noroeste do pais, esta isolada do mundo novamente. Desta vez o isolamento nao se fica a dever a nenhum conflito (como aconteceu em Marco passado), mas antes à imprudencia de alguem. Segundo me informam, a CEDEAO ofereceu 72 toneladas de arroz para distribuir pela populacao afectada pelo conflito de ha uns meses atras. A ajuda nao foi entregue a nenhuma organizacao humanitaria, mas apenas enviada para Varela, onde alguem, a título privado (ao que sei), se deveria encarregar de a distribuir. Viajando de noite e sem luzes, apenas com uma lanterna de mao para iluminar a estrada, um dos camioes que fazia o transporte dos bens acabou por cair à água na ultima ponte antes de chegar a Varela. A ponte ficou desfeita e grande parte do arroz perdeu-se na água. Custa a acreditar, nao custa? Quanto tempo irao agora ficar isolados os habitantes deste canto (e fica mesmo no canto) da Guiné-Bissau? Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> 18.8.06 ENEIDA MARTA - VOZ QUENTE NUM VERAO FRIO A cantora guineense anda por terras alemas a apresentar o seu novo album "Considju". Como se pode ler na pagina oficial da artista este é o seu primeiro tour internacional. Ontem, em Freiburg, no sul da Alemanha, Eneida Marta encheu o acolhedor espaco onde actuou (200 pessoas). A voz quente desta guineense agradou aos presentes e deu um pouco mais de calor ao gélido (na minha opiniao, que venho do Sul) Verao da regiao de Baden-Wuerttemberg. Desde o dia 5 a chuva tem marcada presenca diaria. O oleado e um companheiro inseparavel nas viagens de bicicleta (meio de transporte mais comum). Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> 16.8.06 SEMI FERIAS Finalmente dois minutos para escrever aos ilustres visitantes deste espaco. Ate Setembro esteramos de semi-ferias, um novo conceito de descanso enquanto se trabalha. (Penso vender a ideia as agencias de viagens). Ate breve. Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> 31.7.06 PONTOS DE SAÍDA CADA VEZ MAIS A SUL As praias do Sahara Ocidental, ao sul de Marrocos, estão a ser abandonadas pelos emigrantes que pretendem viajar para as Canárias. Os pontos de partida de clandestinos são cada vez mais abaixo, no mapa de Africa, levando os africanos a efectuar viagens mais longas e perigosas, indicam aqueles que seguem de perto o fenómeno da emigração clandestina. El Ayún, capital do Sahara Ocidental, é um pequeno ponto isolado no meio do deserto. Fica perto do mar mas ao mesmo tempo perdida nas areias do Sahara. A cidade marroquina mais próxima, Agadir, situa-se a 700 Km. De Nouadhibou, no norte da Mauritânia, até El Ayun, viaja-se através de uma estrada que alguns guias consideram das mais bonitas do mundo. Ao todo são 900 KM percorridos com o Oceano Atlântico à esquerda e as dunas do Sahara do lado direito.
O território permanece ocupado militarmente por Marrocos, que afirma a sua soberania sobre esta antiga colónia espanhola. A Frente Polisário continua, a partir da Argélia, a reclamar a independência do Sahara Ocidental. El Ayún foi durante muito tempo referenciada como um ponto de confluência de rotas de clandestinos. Ao todo foram registados nove circuitos que percorriam países como o Níger, Líbia, Mali, Argélia, Mauritânia e Marrocos antes de aqui chegarem. Das praias dos arredores da cidade os emigrantes partiam depois para as Ilhas Canárias, que ficam mesmo aqui ao lado, a cerca de um dia numa piroga da fortuna. Na costa do Sahara Ocidental apanha-se sinal máximo das três operadoras de telemóvel espanholas. E até a rádio que se escuta é das Canárias.
O apito do ferry-boat assinala o início da travessia do estreito de Gibraltar. De Ceuta, enclave espanhol no continente africano, avista-se, mesmo em frente, aquela que é considerada por muitos a terra prometida. Percorrer as poucas milhas que separam os dois continentes é uma pequena viagem para um Europeu. Não o é para um comum africano. A um cidadão do espaço Shenguen bastam 40 Euros para entrar na Europa (o preço do bilhete do ferry-boat que cruza o Estreito). A travessia faz-se com todo o conforto e segurança. A um cidadão do continente negro custa bem mais que isto. Pode custar a própria vida! Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> SONHOS DESFEITOS
DESILUSÃO é a palavra que melhor descreve o sentimento de quem está detido no centro de trânsito de emigrantes de Nouadhibou. O sonho destes homens de rumar à Europa foi desfeito pelas patrulhas mauritanas e espanholas, que desde Março vigiam em conjunto as águas deste país africano. Por graça, chamam Guantanamito à antiga escola, agora adaptada a prisão. Mas a semelhança com a penitenciária norte-americana, fica-se pelo nome. Aqui não há terroristas nem registo de maus tratos. No Centro de Trânsito encontram-se os clandestinos interceptados a viajar em pirogas nas águas da Mauritânia. Estes homens, com idades entre os 18 e os 35 anos, não escondem o sentimento de decepção por não terem conseguido fugir de África. É que chegar a Nouadhibou é difícil e pode obrigar a uma grande viagem. Como a que fez Guag Firmas, que fugiu da guerra no Congo Kinshasa, África Central. "Eu vim pelo Mali. Depois de me ter refugiado parti para a Republica Centro Africana, depois fui para a Líbia, depois Argélia, a seguir Mali e depois Mauritânia." Estórias como as de Guag Firmas são às centenas, garantem os responsáveis da Cruz Vermelha Espanhola e do Crescente Vermelho Mauritano, que gerem conjuntamente o Centro. Em Nouadhibou são detidas pessoas de toda a África, embora a maioria sejam senegaleses, malianos e gambianos. Alguns tentam emigrar clandestinamente mais que uma vez. Os responsáveis afirmam existir casos de jovens detidos quatro ou mesmo mais vezes. Desde Março, data da abertura, já por aqui passaram quase 2 mil e 200 clandestinos, que são depois reencaminhados pelas autoridades mauritanas para os seus países de origem. Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> 27.7.06 NOUADIHBOU CONTINUA A SER PORTA SAIDA A musica ambiente da viatura onde percorro os 500 quilometros que separam Noackchott, capital, de Nouadhibou, no norte do pais, atestam as diferencas culturais entre a mauritania e os paises que lhe ficam ao sul. Os batuques do Senegal e das Guines dao lugar a voz e a guitarra. As florestas dao lugar as dunas de areia do Sahara. As aguas da Mauritania sao ricas em peixe, mas os seus habitantes vivem de costas para o mar, virados sobretudo para o deserto. Aqui pescam barcos de todo o mundo que fazem do pais, ha muitos anos, ponto de partida de clandestins para a Europa. A novidade e que ha algum tempo as viagens deixaram de ser feitas em no escuro dos poroes dos grandes pesaueiros e passaram a ser feitas ao sol, em barcos de madeira. Nos transportes publicos mauritanos regista_se um movimento de estrangeiros que nao deixa margem para duvidas: o pais continua a ser porta de saida para a Europa, isto apesar de o controlo das autoridades muritanas e espanholas ser mais apertado desde Marco ultimo. No mercedes de 25 anos que me leva a Nouadihbou viajam 7 pessoas (3 a frente e 4 atras). Destes passageiros 3 sao originarios do Mali. Os olhos e rostos denunciam medo e ansiedade. Sao candidatos a viajar nas pirogas da fortuna. Os tres jovens nao falam frances nem arabe, as linguas oficiais deste pais "entalado" entre a Africa negra e o Magreb (e que nao se reve em nenhuma das duas regioes). Quando numa das milhentas paragens do caminho, com areia nos 360° do horizonte, lhes pergunto, por entre muitos gestos, se vao para Nouadihbou em busca de uma oportunidade de embarcar, tres sorrisos de esperanca iluminam ao mesmo tempo os tres rostos assustados. A resposta ficou guardada no silencio do deserto. Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> O SILENCIO DE NOUADIHBOU
Nesta cidade do norte da Mauritania existe uma grande hostilidade face aos europeus, no seio da comunidade imigrante proveniente da Africa (dita) negra. Esta falta de simpatia nao e normal na Mauritania nem nos paises de origem de muitas destas pessoas, que por aqui estao a trabalhar ou simplesmente a ver o mar. Nas praias e nos bairros de pescadores por onde passei fui olhado com desconfianca e num deles fui mesmo convidado a "nao aparecer mais". No bairro de Scherka existem muitos guineenses. Fui tentar falar com alguns, mas nem o celebre "kuma di curpo", em crioulo, quebrou o gelo. "Pensas que nao sabemos que es jornalista? Vens a procura desses que querem partir? Foram voces, europeus, que criaram esse problema. Vai te embora." Nao tive coragem de pedir para tirar fotografias destes guineenses que a beira_mar amanhavam peixe. Peixe esse que depois de seco, ao sol, sera enviado para o interior da Mauritania e exportado para o Mali. Tive que meter a viola no saco, como se costuma dizer, sem aventar sequer a hipotese de discutir com este fula de Gabu (a unica informacao que me deu) o problema da emigracao clandestina. Nao estava ali para isso. Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> 26.7.06 EMIGRACAO CLANDESTINA _ senegaleses e mauritanos nao acreditam que fenomeno tenha fim a vista No Senegal e na Mauritania, ninguem acredita que uma fiscalização mais apertada em África - como defendem os países europeus - venha a travar a "sangria" de jovens dispostos a morrer por uma vida melhor. Mustafá Dioup, antigo pescador senegalês, é liminar: "A Polícia pode controlar o que quiser. Mas a Polícia e a Marinha não conhecem o mar. Não conhecem os locais de saída e a que horas vão sair as embarcações. Mas pensa que, mesmo que haja muita Polícia, as pessoas vão deixar de sair de África para a Europa? As pessoas não têm medo, nem que sejam milhões os polícias. Elas cansaram-se de viver no Senegal". Aliás, este pescador considera que imigrar se tornou um desafio para os africanos, face às autoridades e à própria resistência das embarcações. Há até quem já sonhe em chegar ao continente americano. Se o controlo policial impedir as pirogas de chegar às Canárias, a Madeira também pode vir a ser uma opção. O presidente do comite local do Crescente Vermelho de Nouadihbou, a localidade ao norte da Mauritania de onde tem saido milhares de pirogas, alinha pelo mesmo diapasao. Este responsavel, que gere o centro de transito de emigrantes, instalado pela Cruz Vermelha espanhola e Crescente Vermelho mauritano, salienta que depois de Marco, quando a Guardia Civil comecou a patrulhar as aguas mauritanas, o numero de detidos do Centro nao tem vindo a baixar, ao contrario do que seria de esperar. Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> 24.7.06 PIROGAS DAS DUAS FORTUNAS Fazendo as contas e mais ou menos assim: cada piroga leva em media 80 pessoas (pode chegar as cem). Cada uma paga cerca de 600 euros, o que da a quantia de 48.000 euros por viagem. Descontando agora: o preco da piroga, os dois motores, os GPS,s e outro material; dizem_me que pode custar 7.500 euros; descontando ainda 10 pessoas que por serem "tripulantes" nao pagam, 6.000 euros Cada viagem rende 34.500 euros. Dizem por estas praias que um pescador senegales pode trabalhar toda a sua vida que nunca conseguira amealhar semelhante quantia. Nem nada la proximo. Quem observa e analisa de perto este fenomeno, nao tem duvidas em afirmar que "estamos perante uma nova forma de trafico negreiro. A unica diferenca e que ha uns seculos os africanos saiam porque eram obrigados e agora pagam para isso. As pirogas que diariamente saem daqui sao os navios negreiros do seculo XXI. Ate pelas condicoes em que as pessoas viajam: sem comida, sem agua, sem higiene." Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> 23.7.06 OS SEM ESPERANCA III Ja aqui se mostrou a foto de um barco semelhante aqueles onde sai um imigrante clandestino. No Senegal e na Guine chamam-lhes pirogas. Sao embarcacoes de madeira e as que se aventuram Atlantico fora tem entre 16 e 25 metros de envergadura. Estao equipadas com um motor fora de bordo de 40 ou 60 CV. Para quem nao saiba de que motores estamos a falar, podem encontra-los nos barcos de recreio em qualquer praia ou barragem portuguesas. O restante equipamento destas "pirogas da fortuna", como ja sao chamadas, inclui ainda um motor sobresselente identico ao primeiro, N bidons de gasoleo de 200L, dois ou tres GPS e material vedante para reparar fissuras. Como me dizia um clandestino que ja embarcou para Espanha a bordo de uma destas cascas de nos, "as pirogas estao quipadas com tudo o que e necessario para 'la' chegar." Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> OS SEM ESPERANCA II Sao contundentes, certas frases ditas por senegaleses atentos ao fenomeno da emigracao clandestina. Um dirigente de uma organizacao que desenvolve trabalho com jovens do maior bairro dos arredores de Dacar (Pekine), dizia-me ha uns dias: - Estes jovens pouco se importam com o risco de viajar para a Europa em piroga. Nao querem saber se podem morrer ou nao. Eles consideram que viver aqui e, por si so, ja estar morto. Voce calcula como e o dia-a-dia destes jovens? Vou-lhe contar. Levantam-se tarde, juntam-se uns aos outros para falar um pouco, quotizam-se para comprar cha, comem o que as maes ou os vizinhos lhes dao e tornam a deitar-se. Aqui em Pekine temos dois milhoes de pessoas, metada da populacao de Dacar. Quem sustenta a economia do bairro sao as mulheres atraves do pequeno comercio. Os jovens nao conseguem encontrar emprego. Quando questionado sobre se a saida em pirogas era comandada por mafias, ou se se tratava de um negocio informal, um jovem de um dos bairros que mais gente ofereceu a imigracao clandestina (Hann), dizia-me: Nao sao mafias que organizam estas viagens, nao! Sao pessoas com um pouco mais de dinheiro que fazem tudo (compram a piroga, os motores, o gasoleo, etc) e que depois informam os amigos, os vizinhos. Estamos a falar de um negocio absolutamnte informal. As pessoas que organizam isto sao vistas como herois por estes jovens. Sao elas que lhes vao dar a oportunidade de sair do Senegal. Sao autenticos herois. Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> 21.7.06 Saint Louis: morrer de saudade na ultima curva A ultima curva antes de certas locais/localidades tem sempre um sabor especial. Com Saint Louis acontece isso. Quando as aguas pantanosas, de ambos os lados da estrada, se anunciam, o viajante sabe que a cidade esta quase debaixo dos seus olhos. Falta pouco para tornar a ver a ponte de ferro, uma das marcas que Eiffel deixou no continente africano. Falta pouco para sentir o cheiro a maresia que tempera a primeira capital do Senegal. A ultima curva, mais que uma alteracao no caminho, e uma 'marca que marca' cidades/regioes especiais para cada um de nos. Tenho varias «ultimas curvas». Uma e esta. Porque gosto de passar por Saint Louis, mas tambem porque ela me traz a memoria outras curvas semelhantes, que depois de feitas me provam que e bom estar vivo! Ocorre-me outra: a ultima curva da estrada que liga Monapo a Ilha, no norte de Mocambique. Quando a faco, e ja la vao tres longos anos desde a ultima vez, a Ilha sobe no ceu bonita, perfeita, como que a provocar o Indico azul-marinho, a querer dizer-lhe: - Sou mais bonita que tu! E depois ha uma ultima curva que marca (e me marca) a entrada numa terra muito especial. Fica na A6. Nao sei ao certo em que quilometro se da esta aparicao (aqui esta uma tarefa para as ferias). O unico preciosismo que me atrevo a aventar neste momento, em que escrevo sob a chuva, na fronteira da Africa negra com o Sahara, e que a dita curva fica ali para a zona de Vendas Novas. Segue-se-lhe um viaduto, autentica janela magica, e dentro dela, ao longe mas enquadrada na perfeicao no caixilho do viaduto, uma pequena elevacao povoada de sobreiros. Quando ali passo, vindo da confusa Lisboa, respiro fundo, para sentir o cheiro da cal e da terra (como disse Eugenio de Andrade), e sinto entao, e so ai, que cheguei a casa. Hoje, ao passar pela ultima curva, antes de St Louis, quase morria de saudade. Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> 20.7.06 Dos suburbios para o centro - O (ultimo) prazer da mesa O restaurante Chez Loutcha (centro Dacar, junto das Linhas Aereas de Cabo Verde e da livraria "4 vents") e uma das poucas coisas boas que o Senegal tem (sim, sei que estou a exagerar). Apos tres dias passados em praias que sao a antitese do paraiso (toneladas de lixo, milhares de peixes podres no areal, dezenas de esgotos a ceu aberto) e a comer e dormir em sitios o mais backpacker possivel, decidi oferecer a mim mesmo uma pequena extravagancia. Comer naquele que e considerado pela Lonely Planet (o guia dos turistas de pe descalco) um dos melhores restaurantes do mundo. Hoje dei-me ao trabalho de contar o numero exacto de paginas do menu, coisa que nao fizera da ultima vez. 40. Nem mais nem menos. Conta se que clientes menos avisados terao ja reclamado quando o garcon traz o menu a mesa: - Desculpe, eu nao pedi a lista telefonica! Come-se bem nesta casa de cabo-verdianos (so podia ser!). E barato para a qualidade e quantidade (sobretudo para quem vem de Bissau): entrada (suficiente para dois), prato (suficiente para tres) e sobremesa (suficiente para um, que o que e doce nao se divide!). 15 euros. O jantar serviu para matar a fome apos tres dias loucos. Serviu ainda de consolo previo ao que me espera daqui por dois dias (ja comeco a sentir o estomago e os intestinos a dar nos e as unhas dos pes e das maos a encarquilhar). Atravessar a fronteira de Rosso, Senegal/Mauritania, tira a vontade de viajar a quem gosta de fazer caminho. Ate la, comer deixara de ser um prazer! PS, dirigido a quem gostasse de ser americano: Na embaixada da Mauritania em Dacar um visto custa cerca de 50 Euros para um europeu. Um americano que queira visitar esta "Republica Islamica" tera que desembolsar 130 Euros. Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> OS SEM ESPERANCA Antes de sair de Bissau entrevistei um guineense que tentou emigrar para Espanha como clandestino, mas que nao obteve exito. Foi deportado e hoje vive na Guine a estudar a melhor forma de tornar a emigrar, agora legalmente. Issufo, (nome ficticio) aprendeu a licao. Perdeu dinheiro, podia ter perdido a vida... voltou a origem mais pobre do que havia partido. Hoje, apos tres dias de arrabaldes de Dacar, a estoria de Issufo tornou-se banal aos meus olhos. Tem sido tantos aqueles que tenho encontrado com testemunhos parecidos ao de Issufo!... Com uma diferenca: os senegaleses com quem tenho falado nao aprenderam a licao. Querem voltar, custe o que custar (Se se visitar os seus bairros, as casas onde vivem, percebe-se porque). As suas estorias sao todas parecidas. Sairam de piroga, passaram mal e depois ou foram apanhados por alguma patrulha (senegalesa, mauritana, marroquina ou espanhola) ou foram obrigados a dar meia volta devido a avarias ou fissuras na madeira das embarcacoes. Um jovem de 29 anos dizia-me hoje que chegou a ver as luzes da Canarias, mas que o mar ficou tao revolto que a piroga foi obrigada a voltar a Mauritania. O relato e impressionante. Transporto para o papel/tela perde o dramatismo. "As ondas tinham quinze metros de altura. Nos subiamos e desciamos como se estivessemos numa montanha! So que nao saiamos do mesmo sitio. Todo a gente gritava e chorava. Alguns rezavam. Voltamos para tras e fomos presos na Mauritania. Se tive medo? Sim, tive medo, muito medo." Perante um discurso assim, quase nao se ousa fazer a pergunta seguinte: "Vais voltar a entrar numa piroga?" "Concerteza! Cansei-me de viver no Senegal! Aqui nao ha esperanca." Em comparacao com o discurso deste senegales, o de Issufo e quase brincadeira. De qualquer forma ele aqui fica, ja que nao tenho, por agora, meios de colocar outros on-line. Powered by Castpost Powered by Castpost Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> 18.7.06 Yoff, libaneses e net ultra_sonica. Um serao a navegar Em Yoff, arredores de Dacar, a vida corre tao lenta como a estrada que da acesso ao centro da cidade grande. Mr Wade, o presidente, decidiu fazer obras, para ver se o reelegem, e decidiu cortar, ao mesmo tempo, as duas vias de acesso à capital senegalesa. A localidade, que ja foi um bairro de pescadores, é hoje dormitorio de Dacar. Virou costas ao mar e vive a controlar a permanente hora de ponta da estrada que a divide em duas. Como um pouco por todo o Senegal, Yoff tem uma significativa comunidade libanesa, que estes dias vive agarrada ao telefone, radio, Internet e televisao. No cyber-cafe onde me encontro, ha uma mulher libanesa com dois filhos que ocupam tres computadores. Uma espreitadela furtiva no computador da mae permitiu-me ver que procurava na Rede as ultimas actualizacoes sobre os ataques israelitas. Ao lado, coladas cada uma ao seu ecran, indiferentes ao cair das bombas (talvez) em casa dos avos, as criancas conduzem na pantalha potentes motos. So a mae persegue e fulmina a tela com os olhos, como se a sua raiva pudesse acabar de vez, e à distancia, com o conflito. Sento-me à sua frente e deleito-me com a velocidade super-sonica das linhas senegalesas. Abencoadas sejam! Ainda para mais a 300 Francos (50 centimos de euro) por hora de acesso. So o teclado frances e a tecla delete encravada estragam o sonho de um serao passado a navegar. Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> Correr es mi destino para burlar la ley... (Refrao de uma letra de Manu Chao) Saem de Africa para fugir à miséria. Optam pela clandestinidade pois as embaixadas europeias negam vistos de entrada no El Dourado Europeu. Não há dados concretos acerca do número de africanos que por ano abandonam o continente como clandestinos. Sabe-se apenas que são muitos. Na Africa Ocidental, o trajecto rumo à Europa faz-se por etapas e para quem sai das guinés e do Mali tem como primeira paragem Dakar, no Senegal, 600 km a norte de Bissau. Ali os imigrantes procuram trabalho de forma a angariar dinheiro para a etapa seguinte, que pode ser Cabo Verde ou, mais barato, as praias do Senegal Mauritania ou o porto pesqueiro de Noadibhou, no norte da Mauritânia, a 1000 km de Dakar. Surgem entao duas opções: ou os emigrantes entram como clandestinos numa das muitas centenas de embarcações de pesca artesanal que diariamente "operam" nestas aguas, ou demandam o Norte de África pelas areias do deserto do Sahara, viajando em camiões rumo a Marrocos ou Argélia. O objectivo Europa pode demorar muito tempo a alcançar. Em Bissau são conhecidas histórias de emigrantes que passaram cinco anos em trânsito, ora viajando, ora parando no caminho para trabalhar e ganhar dinheiro para prosseguir viagem. Para o salto final (quer seja por terra quer seja por mar) existe apenas uma preocupação: viajar sem documentos. O objectivo deste branqueamento da identidade é "trocar as voltas" as autoridades espanholas e dest forma evitar um repatriamento. Em alternativa pode sempre solicitar_se asilo politico, alegando ser originario de um pais em guerra ou governado por um qualquer tirano. Nos proximos dias percorreremos a costa senegalesa e mauritana em busca deste movimento de gentes. Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$> A CAMINHO DAS FÉRIAS (mas ainda não em férias)... ...indo por aqui,
passando por aqui,
aqui,
aqui,
e aqui,
até chegar aqui!
Daremos notícias, sempre que houver tempo. Linha haverá concerteza. Até nas dunas do Sahara haverão provedores de acesso à Internet e cyber-técnicos melhores que os que existem na Guiné-Bissau. E não serão camelos! Jorge Neto $BlogItemAuthorNickname$>
|
![]() |